Filme estranho esse!

HÁ 20 ANOS ESTREAVA O FILME DE TERROR QUE TENTOU DESTRUIR A IMAGEM DO BRASIL DE TODAS AS FORMAS POSSÍVEIS!

Em 2006, estreava o filme Turistas, dirigido por John Stockwell. A premissa parecia simples: um grupo de jovens estrangeiros faz uma viagem de mochila pelo Brasil em busca de praias, festas e aventura... e acaba caindo em uma história de terror.

A história começa com um grupo de turistas americanos e europeus viajando pelo Brasil em um ônibus.

Até aí, tudo normal.

Durante a conversa entre os personagens, cada um menciona o destino que pretende visitar no país.

Um deles diz que está indo para Florianópolis, no sul do Brasil.
Outro afirma que pretende seguir para Belém, na região amazônica.

O problema é que essas duas cidades ficam a milhares de quilômetros de distância uma da outra. Na prática, seria impossível que todos estivessem naquele mesmo ônibus indo para destinos tão diferentes.

Esse detalhe acaba revelando um ponto importante: o Brasil é tratado no filme quase como um cenário genérico, onde praias tropicais, floresta e pequenas vilas aparecem misturados, sem muita preocupação com geografia ou realidade.

Depois de um acidente na estrada, os turistas ficam presos em uma região isolada.

Enquanto esperam ajuda, acabam encontrando uma praia paradisíaca onde está acontecendo uma grande festa.

É nesse momento que o filme constrói uma das imagens mais estereotipadas do Brasil: um lugar dominado por bebida, drogas, nudez, sexo e libertinagem.

Os estrangeiros rapidamente entram no clima da festa. Música alta, dança, álcool circulando livremente e pessoas se beijando por todos os lados. A cena tenta mostrar o país como um território onde tudo é permitido.

Em determinado momento acontece uma fala que chamou bastante atenção de quem assistiu ao filme. Um dos turistas se vira para outro personagem que está viajando com a própria irmã e comenta:

“Por que você trouxe sua irmã para o Brasil? Esse não é lugar para mulheres. Aqui é lugar para os homens aproveitarem.”

A frase resume bem a visão que o filme tenta construir: o Brasil como um destino voltado ao prazer masculino, associado à sexualização e à ideia de liberdade sem limites.

Essa visão reforça um estereótipo antigo que associa o país apenas ao turismo sexual e à busca por diversão sem regras.

Depois da noite de festa, os turistas acordam e percebem que foram roubados. Passaportes, dinheiro e mochilas desapareceram. Sem documentos e sem recursos, eles ficam presos naquela região e precisam procurar ajuda.

As localidades próximas são mostradas como vilarejos extremamente pobres e isolados, sem carros e infraestrutura. Os moradores aparecem observando os estrangeiros com desconfiança, reforçando o clima de perigo.

Outro aspecto criticado no filme é a forma como muitos brasileiros são retratados fisicamente.

Diversos personagens locais aparecem com características físicas associadas aos povos indígenas.

O problema não está na presença dessas características, mas na forma como elas são usadas narrativamente.

No filme, esses traços acabam sendo associados a um ambiente sombrio e perigoso. A construção visual sugere um país isolado, quase primitivo, reforçando a ideia de que o Brasil seria um território distante da modernidade.

Enquanto tentam recuperar seus pertences, os turistas acabam sendo levados para uma mansão isolada no meio da floresta.

O lugar parece inicialmente um refúgio seguro mas logo se revela o centro de algo muito mais sinistro.

Ali funciona uma organização clandestina responsável por sequestrar turistas estrangeiros para retirar seus órgãos.

Os personagens são capturados, drogados e levados para uma espécie de clínica improvisada dentro da casa, equipada com instrumentos cirúrgicos.

O médico responsável pela operação tenta justificar suas ações com um discurso perturbador. Em determinado momento ele afirma:

“Um coração americano batendo no peito de um brasileiro… isso é justiça.”

A lógica distorcida do personagem é que estrangeiros ricos exploram o país em busca de diversão, enquanto brasileiros pobres precisam desesperadamente de transplantes. Na mente dele, retirar os órgãos desses turistas seria uma forma de corrigir essa desigualdade. 

Quando percebem o que está acontecendo, alguns dos personagens conseguem escapar.

A partir daí começa uma fuga desesperada pela floresta, com perseguições, emboscadas e tentativas de encontrar ajuda antes de serem capturados novamente.

Curiosamente, o filme foi lançado nos Estados Unidos com o título “Turistas”, em português mesmo, algo incomum para uma produção de Hollywood. A escolha do nome buscava reforçar a ideia de exotismo do país onde a história se passa.

​Antes mesmo do filme chegar às telas brasileiras em 2006, o trailer já circulava na internet, causando indignação imediata. O material promocional não vendia apenas um suspense, mas sim a ideia de que o Brasil era uma armadilha mortal.

Quando o filme finalmente estreou, a recepção foi extremamente negativa tanto pela crítica quanto pelo público.

O Instituto Brasileiro de Turismo considerou que o filme prestava um desserviço à imagem do país, reforçando esteriótipos negativos.

Houve discussões sobre campanhas para desencorajar o público estrangeiro de assistir ao filme. A preocupação era que o filme pudesse impactar diretamente o fluxo de turistas, sugerindo que o Brasil era um lugar onde visitantes eram "caçados".

O ator principal, Josh Duhamel, chegou a pedir desculpas públicas aos brasileiros durante uma entrevista no programa The Tonight Show with Jay Leno: 

"Não era nossa intenção manchar a imagem do Brasil", afirmou o ator na época, tentando suavizar o mal-estar diplomático.

O diretor John Stockwell se defendeu na época dizendo que o filme era apenas um "terror de sobrevivência" e que o Brasil foi escolhido justamente por ser um lugar lindo, o que criaria um contraste com o horror da trama.

A polêmica foi tão grande que, por anos, produtores estrangeiros tiveram dificuldade em obter autorizações facilitadas para filmar certas temáticas no Brasil.

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