Eu acordo cedo.
Cedo mesmo.
Daqueles horários em que o céu ainda parece cansado demais pra clarear.
Saio de casa enquanto meu filho ainda dorme.
Às vezes ele acorda e pergunta:
— Pai, hoje tu vai brincar comigo?
E eu respondo com aquele silêncio que trabalhador aprende desde cedo.
O silêncio de quem precisa escolher entre sobreviver e viver.
Mas me disseram que luta de classes não existe.
Claro que não existe.
Eu trabalho para meu patrão comprar um jet ski novo enquanto eu calculo se consigo comprar mistura até sexta-feira.
Eu deixo minha filha em casa no sábado porque preciso cuidar dos lucros da empresa.
Meu patrão está viajando desde sexta, curtindo parque, hotel, piscina, ar-condicionado e foto feliz em família dentro da SUV importada.
E eu?
Bom… eu tenho o orgulho de vestir a camiseta da empresa.
Dizem que a culpa é minha.
Talvez seja mesmo.
Talvez a culpa tenha começado séculos atrás, quando gente preta foi arrancada da própria terra, jogada em navios, tratada como carga e depois “libertada” sem terra, sem estudo, sem dignidade e sem direito algum.
A escravidão acabou no papel.
Porque na prática ela só trocou de uniforme.
Hoje não tem corrente no pé.
Tem crachá no peito.
Não tem senzala.
Tem ponto eletrônico.
Não tem capitão do mato.
Tem meta abusiva, escala 6x1 e medo de ser demitido.
Mas calma… luta de classes não existe.
Existe apenas o trabalhador que passa mais tempo vendo o chefe do que vendo os próprios filhos.
Existe apenas o homem que troca aniversário da filha por hora extra.
Existe apenas a mãe que pega ônibus lotado enquanto alguém decide, lá de cima, que oito reais e cinquenta centavos numa passagem “é necessário”.
E quando alguém reclama, aparece outro dizendo:
— Trabalha mais.
— Reclama menos.
— Seja grato.
Grato pelo quê?
Por sobreviver cansado?
A verdade é que o trabalhador brasileiro virou especialista em pedir desculpas.
“Desculpa incomodar, patrão.”
“Desculpa adoecer.”
“Desculpa querer descansar.”
“Desculpa querer viver um pouco antes de morrer.”
Porque até descansar parece crime.
Enquanto isso, no Senado e na Câmara, muitos dos que nasceram herdeiros decidem o destino de quem nasceu devendo.
Falam de produtividade olhando gráficos.
Mas nunca pegaram ônibus lotado às 5h da manhã.
Nunca escolheram entre gás e carne.
Nunca ouviram o filho dizer:
— Pai, tu nunca tá em casa.
E ainda assim dizem que a luta de classes é invenção.
Talvez seja mesmo.
Talvez seja coincidência quem lucra e quem sangra.
Quem herda e quem carrega.
Quem manda e quem obedece.
Talvez seja coincidência o trabalhador morrer mais cedo, dormir menos, viver menos e sorrir menos.
Mas uma coisa é certa:
o povo sente.
Sente no corpo.
Na coluna.
Na mente.
Na ausência do abraço que não conseguiu dar.
Porque às vezes o trabalhador não volta pra casa.
Tomba no ônibus.
Na obra.
Na moto.
Na correria.
E mesmo assim, no outro dia, o sistema continua funcionando perfeitamente.
No fim, talvez a maior revolta do trabalhador brasileiro não seja a pobreza.
É perceber que deram a ele uma vida inteira de esforço…
e chamaram isso de privilégio.
«“No tempo do cativeiro
quando senhor me batia
e rezava pra Nossa Senhora
ai meu Deus como a pancada doía…”»
✍️ Cordeiro Confuso
“Entre boletos, ônibus lotado e sonhos adiados.”
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