Sim, parece piada, mas aconteceu.
Nossa história começou da forma mais improvável possível: brigando sobre política no Facebook.
Ela era uma gaúcha bonita, mãe de família e vinda de uma família com tradição militar. Talvez o que tenha despertado sua curiosidade sobre mim fossem algumas fotos antigas da época em que servi ao Exército, além do fato de eu ter parentes bolsonaristas. O problema começou quando ela descobriu que eu era de esquerda.
A partir daí, vieram as mensagens no inbox. Muitas mensagens. E, na maioria das vezes, não eram exatamente amigáveis.
Eu perguntava por que ela estava tão irritada comigo, já que eu nunca havia feito nada contra ela. Mas os xingamentos continuavam. Enquanto isso, eu respondia apenas aos comentários relacionados às minhas publicações e evitava entrar em discussões pessoais.
Confesso que cheguei a visitar seu perfil algumas vezes. Vi fotos da família, dos amigos e da rotina dela. Parecia uma pessoa comum, como qualquer outra. Na minha visão, apenas alguém com convicções políticas muito fortes.
Certa noite, solteiro, em casa e tomando vinho, fiz uma publicação qualquer no Facebook. Como de costume, ela apareceu no inbox.
Eu já estava cansado daquela situação e, em tom de brincadeira, enviei um áudio provocando a situação. Para minha surpresa, ela respondeu enviando uma foto da taça de vinho que estava bebendo.
O detalhe curioso era que era exatamente o mesmo vinho que eu estava tomando.
Mandei uma foto da minha taça e comentei:
— Gostos parecidos, lados opostos.
Pela primeira vez, a conversa saiu do campo da discussão política e entrou no território da descontração.
Entre uma mensagem e outra, descobrimos que tínhamos mais assuntos em comum do que imaginávamos. Conversamos sobre família, religião, Exército, cultura nordestina e sobre as diferenças entre nossas regiões.
Em determinado momento, ela aceitou meu convite para continuar a conversa pessoalmente.
E não é que ela apareceu mesmo?
Quando chegou, percebi que ela havia bebido mais do que imaginava. Conversamos durante algum tempo, sempre em clima amigável. Curiosamente, quase não falamos de política.
O assunto girou em torno de histórias de vida, experiências familiares e curiosidades sobre nossas origens.
Com o passar das horas, ela acabou adormecendo no sofá.
Meu sobrinho chegou em casa e perguntou quem era a visitante. Mostrei o perfil dela e expliquei a situação. Como ela não acordava de jeito nenhum, resolvi procurar algum familiar.
Depois de algumas tentativas, encontrei uma de suas filhas pelas redes sociais. Expliquei o que havia acontecido, enviei minha localização e disse que ela estava em segurança.
A filha respondeu rapidamente. Mais tarde, ela apareceu acompanhada do namorado.
Conversamos por um bom tempo. Eles perceberam que não havia nenhum problema e que minha única preocupação era garantir que tudo estivesse bem.
Tentaram acordá-la algumas vezes, mas sem sucesso.
Depois de muita conversa e algumas risadas sobre aquela situação inusitada, decidiram voltar para casa. Pediram apenas que eu avisasse quando ela despertasse.
No dia seguinte, ela acordou e foi embora.
O mais curioso é que, mesmo depois de tudo isso, ela continuou me provocando e me criticando no inbox de vez em quando.
E sabe o que é mais engraçado nessa história?
Durante todo o tempo em que convivemos pessoalmente, praticamente nunca falamos de política.
Parece que, longe das telas e dos algoritmos, as pessoas costumam ser muito diferentes daquilo que mostram na internet.
Talvez essa seja a verdadeira moral da história.
Por trás de cada perfil, de cada discussão e de cada opinião política, existe um ser humano. E, às vezes, quando a conversa sai do campo da guerra ideológica, descobrimos que temos muito mais em comum do que imaginávamos.
— Cordeiro Confuso
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