Deputado, senador, vereador, prefeito, governador, presidente...
De onde eles vieram?
Do povo.
Então fica uma pergunta desconfortável: será que a corrupção que enxergamos na política é completamente diferente daquela que aparece no nosso cotidiano?
Calma. Não estou dizendo que todo brasileiro é corrupto. Mas talvez exista uma coisa que precisamos ter coragem de admitir: o famoso “jeitinho brasileiro” também faz parte da nossa cultura.
Quer saber como uma sociedade funciona?
Observe um ônibus lotado.
Observe uma fila.
Observe o trânsito.
Observe alguém tentando passar na frente de todo mundo porque acredita que sua pressa vale mais do que o tempo dos outros.
Observe quem joga papel de bala no chão porque “é só um papelzinho”.
Observe quem joga a bituca de cigarro na rua.
Observe quem coloca o som tão alto que incomoda o quarteirão inteiro e depois diz:
“Minha casa, minhas regras.”
Observe quem encontra uma maneira de burlar uma regra e ainda se orgulha:
“Eu sou esperto.”
E talvez seja justamente aí que esteja o problema.
Corrupção não começa necessariamente em Brasília.
Às vezes começa naquela pequena vantagem que alguém tenta conseguir quando acredita que pode desrespeitar a regra porque ninguém está olhando.
É o famoso:
“Só dessa vez.”
“Não vai fazer diferença.”
“Todo mundo faz.”
“Se eu não fizer, outro vai fazer.”
E assim, pouco a pouco, aquilo que deveria causar vergonha passa a ser tratado como esperteza.
No trânsito, todos querem chegar ao mesmo destino. Se cada pessoa respeitar sua vez, todos chegam.
Mas não.
Um quer cortar o outro.
Um fecha o outro.
Outro buzina.
Outro ultrapassa pelo acostamento.
E depois reclama:
“Esse país não tem jeito!”
Talvez tenha.
Mas talvez o primeiro passo seja parar de procurar a corrupção somente no gabinete do político e começar a olhar também para aquilo que fazemos quando acreditamos que ninguém está vendo.
Porque uma sociedade não é feita apenas dos políticos que elege.
Sociedade também é aquilo que fazemos uns com os outros todos os dias.
E se queremos políticos melhores, talvez também precisemos ser cidadãos melhores.
Não porque todo brasileiro seja corrupto.
Mas porque, se queremos mudar o Brasil, não podemos exigir honestidade dos outros enquanto aceitamos o nosso próprio “jeitinho”.
A mudança começa quando a pequena vantagem deixa de ser motivo de orgulho.
E quando alguém finalmente consegue dizer:
“Eu poderia fazer errado. Mas vou fazer certo mesmo assim.”
— Cordeiro Confuso
Pensamentos que incomodam, porque às vezes a maior confusão não está no mundo.
Está dentro de nós.
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